quinta-feira, 29 de julho de 2010

mala ou muchila

Algumas vezes me deparei com perguntas do tipo: “Se eu for viajar, devo ir de mala ou mochilão?”. Hoje posso responder a perguntas como essa sem titubear.

O melhor é levar nas costas ou nas mãos aquilo que lhe convém. Não siga um padrão ou um roteiro pelo simples fato de lhe dizerem que é melhor isto ou aquilo. Seja você!

Liberte a sua mente, busque os lugares que lhe agradam e não apenas aqueles classificados em guias como cinco estrelas. Se for bom para você, deite no banco de uma praça e olhe a lua, cante em um palco mesmo sem ter ritmo, dance tango, axé, forró, mesmo sem saber dançar.

O bacana da vida é ser a melhor companhia para você mesmo em qualquer lugar em que estiver. Quando o coração se enche de felicidade sem um motivo específico, ai sim, sugiro que você distribua o melhor sorriso que tem e contagie com a sua alegria aqueles que o cercam (isso de fato acontece).

Não queira ser forte o suficiente para não chorar ou inteligente demais para excluir a possibilidade de rir de você mesmo. Não seja tão apegado às ideias de outras pessoas quando forem de encontro às suas. Tenha a certeza absoluta de que ninguém é melhor ou maior que você (exceto um ser que se encontra lá no alto, mas esse, com toda sua sabedoria, permite que você erre e acerte ao longo de todos os seus segundos).

Uma aventura, para mim, pode não ser aventura para você e vice-versa. Se para você um dia maravilhoso é aquele no qual assiste toda a saga de Star Wars, faça isso mais vezes. Você não precisa viajar só porque eu digo que é fantástico e nem eu preciso assistir Star Wars, mas ambos precisamos nos aventurar...

Então, por fim eu digo, você não precisa especificamente de uma mala ou mochilão, e pode ignorar tudo aquilo que eu disse. Basta fazer aquilo que o agrada, desde que não faça mal a ninguém, se conheça melhor, escolha aquilo que se configure uma aventura para você.

Mala, mochila, Star Wars, banco de praça ou seja lá o que for, seja feliz do seu jeito. E, se for viajar, garanto que o melhor que você traz e leva não se transporta em uma mala ou mochilão, mas sim no peito.

bjks

segunda-feira, 26 de julho de 2010

LITERATURA

Antes, quando meus olhos só viam letras, aprendi geografia, história, matemática, química, física, biologia e a traçar boas linhas com nossa língua portuguesa. Depois, quando comecei a ver as imagens literárias, a realidade exata das disciplinas curriculares passou a ter sentido. E a vida, então, deixou de ser um tédio e passou a ser um jogo, o jogo da contente. E hoje posso sonhar noites de verão e ver primaveras e outonos. Continuo, como profissional das ciências biológicas e humanas, a percorrer átrios e ventrículos; porém, sempre quando me mostram o desenho de um chapéu, digo, com convicção: é apenas uma jiboia que engoliu um elefante.

E, assim, deixando a semente que cada livro trás consigo penetrar no terreno fértil da minha imaginação, descobri que sou eternamente responsável por tudo aquilo que cativo e amo. E dessa forma, os ciúmes que sentia de minha senhora de olhos dissimulados se tornaram memórias póstumas. E quando visitei o país das maravilhas, percebi que por mais fundo que pareça o buraco em que caio constantemente, jamais viajarei ao centro da terra. E do solo sempre me reerguerei, pois sempre há mãos que nos levantam nesta primavera chamada vida.

Não posso, bem sei, dar uma volta ao mundo em oitenta dias. Mas afirmo, com toda certeza, que nesta pequena lira dos meus 4.3 anos, já vi lugares infernais e celestiais, e que este nosso planeta é mesmo uma divina comédia. E dele sempre rio e sempre choro. Sobre esta esfera, quando menina de engenho, aprendi logo na inocência de minha orfandade que todos têm a sua hora e sua vez, todos têm a sua hora de estrela. E que não adiantaria eu atrasar o tempo cinco minutos só para satisfazer o meu instinto de mulata sexuada em uma alcova qualquer. Deveria, sim, olhar no espelho e ver a menina que lá está brincando com o princepe. Mas o reflexo só me permite enxergar o monstro que sou, ainda que me orgulhe do status de doutora; porém incapaz de salvar almas. Na minha casa verde, repleta de mistérios, pacientes de lunetas mágicas vêm em busca de cura. Na verdade, a única coisa de que precisam nestas suas vidas secas são de ondas de alegria, ondas de amor, ondas que preencham os sertões de seus corações.

Não sou uma mulher que calcula, estou mais para um grande mentecapto. Não posso dar aos meus pacientes um cérebro, nem coragem, nem coração. Queria mesmo poder enxergar por trás dos vidros um mundo maravilhoso e mágico como o de Oz, mas os paraísos os quais posso alcançar são todos artificiais.

Saudade da aurora da minha vida, dos tempos em que era caçadora de pipas, que acreditava em ilhas de tesouros, em ilhas perdidas. Recordações do burrinho pedrês e do meu pé de laranja lima. Bom tempo, boitempo.

Hoje, após flutuar nas espumas das letras e de ouvir, verdadeiramente, o recado do morro, que nesta odisseia simboliza Deus, caminho retamente nos traçados tortos da minha imaginação. E não mais leio as letras das páginas que diariamente folheio, pois nada significam. Aprendi o segredo: “é preciso ver com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Não há mais a necessidade de escrever nenhum ensaio sobre a cegueira, pois mesmo na escuridão é possível ver e admirar a ilusão. Leio, agora, as vidas das páginas que diariamente folheio.

E depois de abraçar os relevos, as vegetações; depois de gritar “liberdade ainda que tardia”; após traçar ângulos retos nesta minha geometria torta; enquanto via íons, prótons, neutros e elétrons; descobri na fisiologia de meu ser que a literatura é indispensável. E que não há como padecer de solidão se há um amigo repleto de páginas e letras.

Então, que fique aqui decretado para sempre: não quero ser mais um artista da fome humana, mas, sim, um artista da verossimilhança. Quero ser como os livros, um caminho para o saber, ser uma história sem fim, ser tão... veredas.

bjks

domingo, 25 de julho de 2010

O viver significa aprendizagem constante. Aprendo e apreendo coisas todos os dias. Ninguém neste mundo sabe tudo ou nada tem a aprender. O aprendizado por meio da leitura de um livro, por exemplo, é algo surpreendente. Se for obra-prima, então, pode-se aprender e apreender uma porção de coisas.

Livros como, por exemplo, “Os trabalhadores do mar”, de Victor Hugo; ou “Moby Dick”, de Herman Melville – só para citar dois, pois muitos outros há, evidentemente – são de um aprendizado fora do comum. Quem quiser aprender e apreender ensinamentos sobre baleia, “Moby Dick” é rico em informações do gênero.

Posso aprender e apreender muito no convívio com gentes. Uma pessoa sábia é como um livro aberto do qual jorra sapiência como numa cachoeira. Tive a sorte de conviver com pessoas do mais alto quilate: escritores, jornalistas, poetas etc., mas aprendi muito também com gentes simples, sem tanta instrução, pessoas autodidatas ungidas pela luz divina como porteiros, faxineiras; gentes alfabetizadas e analfabetas também.

É importante fazer “leitura de gente”. Isto eu aprendi com o falecido Leonel Brizola. Não tive nenhuma convivência pessoal com ele. Mas um dia li uma entrevista dele numa revista e em um dos trechos Brizola dizia: “venho de longe, faço leitura de gente”. Quem o conheceu sabe: isto é verdadeiro, pois o homem, inclusive, tinha um discurso convincente, apesar de muitos só terem reconhecido isto depois da morte dele.

Convivo com o meu amigo jornalista Argemiro, e o que dele apreendi pratico hoje ainda ao fazer entrevistas ou reportagens. Com ele andava rumo à Redação do “O Jornal o povo” para ser apresentada como sua substituto, Argemiro me repassou ensinamento basilar para elaborar o texto jornalístico, o “lide”.

Desde então – e lá se vão uns 20 anos . Foi por meio deste novo aprendizado, o de “cronicar”, e graças ao dinamismo da internet.

Recebi dele mensagem por ter lido o meu texto “Confesso que vivi”, título de um poema de Pablo Neruda, do livro “Para nascer nasci”.

“Vann” – ele disse: “É evidente que temos muita vivência em comum, pois afinal nosso habitat foi o mesmo. E ainda há pouco, escrevi um soneto, em que dizia, “Confesso, com meus olhos, eu vivi.

Anexo, envio meu soneto para sua apreciação. Um abraço, Argemiro.

Com a devida autorização de meu amigo Argemiro, publico o soneto, “Olhar de Amor”, abaixo:

“Conheço todas as mulheres que me amaram;/ Ainda que na inocência de minha adolescência; / Pois seus segredos jamais se desviaram / De meus medos, sempre em efervescência./

“Na minha pureza tola, de rapaz menino; / Vi amor desabrochar em seus olhares; / Mas na minha intimidade de menino tímido, / Deixei muitos amores escaparem./Quantas vezes vi uma boca a me declarar, / Coisas de amor, que confesso, queria escutar,/ Sem mover os lábios, apenas com o olhar. /

“Hoje, meus olhos ao sorrirem envelhecidos, / Com as rugas cobertas pelo amor que senti / Confesso; com meus olhos; eu vivi”/.

Nesta oportunidade, aproveito para me dirigir a todos com os quais aprendi a me tornar o que sou. Não que eu seja lá grande coisa. Em primeiro lugar, agradeço a Deus. Agradeço a todas as pessoas com as quais convivi.

E se em meio aos que me leem neste momento tiver alguém da minha convivência no passado ou no presente, por favor, sinta o calor do meu abraço de gratidão, pois com todos aprendi. E apreendi...

Bjks

sábado, 24 de julho de 2010

AS FILHAS DO SILÊNCIO

Em silêncio ou algazarra, as caravanas passam. Um dia, passam. Foi dramático o momento lamento oco das vuvuzelas tristes, substituindo a rápida toada verde e amarela que ameaçava decolar, mesmo com tudo o que dizia "não, não vá, não vai dar" . Nossos cãezinhos sofreram à toa, em pânico com os estrondos. Nossas mulheres continuaram morrendo horrendamente matadas por homens e paixões, algozes. Como o futebol.

O goleiro Bruno pode ter matado a mesma dona da trave aberta de onde saiu um gol-menino, seu. A jovem advogada perdeu a vida à beira de uma represa. A adolescente emerge decomposta das águas que há dias acabava com as esperanças. Elas somem de seus caminhos cotidianos para morrer, em emboscadas. Outras, com histórias menos vistosas, foram encontradas aos pedaços, em malas, em valas. E amanhã tem mais. Se for bonita, comoção maior. Deveria ter sido feito isso, aquilo, um monte de coisas. Morreram porque um dia amaram, e deixaram de amar, ou se libertaram dessas paixões que de tão doentias quase matavam. Suas vidas esmiuçadas agora parecem querer mostrar apenas que elas é que procuravam isso.

Mas essas coisas todas, que não deveriam acontecer, existem. E só porque há leis para nos proteger que não são jamais cumpridas, nem o básico. Às vezes até por serem impossíveis - bonitas no papel, com seus capítulos e parágrafos recheados, mas inexequíveis. Falsa sensação essa a de dormir pensando que te deram algo, que todos se vangloriaram, assinaram leis, posaram para fotos, deram entrevistas. Cada vez menos se acredita, ou melhor, nós, mulheres, Vann, Vanilda,Marias, da Penha, da Lapa, do Grajaú, de Vila Isabel, Copacabana, cada vez acreditamos menos em proteção. Reclamar para quem? Para o Papa? o bispo? De qual igreja? De qual jogo? Quando? Como fantasminha de novela? Quando já não adianta mais nada, já era? Mórrrreu...

Acabo de ler que "em dez anos, dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. Entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio - índice de 4,2 assassinadas por 100 mil habitantes". Índice acima de qualquer padrão, se é que haveria um, a não ser o da desfaçatez e loucura humana - uns subjugando outros. Isso é grave, e o problema da violência doméstica deveria estar em destaque, na boca de quem diz defender a mulher. Mas sempre a preferência é o blábláblá executivo que, de tão geral não faz sentido, ou, de tão específico, só pode estar privilegiando alguém. Nem o boi consegue dormir mais.

Onde estão os poderes?

Há a lei, legislada, e há o juiz, como o de uma partida de futebol, e como tantos os que vimos em campo, muitos vacilando. Ele precisa ver - se ligar, apitar, gritar, dar um piti - para parar o lance e cobrar a falta. Nossa Justiça precisa ter menos ouvidos moucos. Deveria. Inquéritos mal concluídos, investigações desastrosas ou sensacionalistas, falta de preparo dos investigadores, falta de equipamentos modernos de detecção. E chega um caso atrás do outro. Os grotões do país. A descultura nacional que proporciona e aceita a descompostura masculina como sinal de testosterona.

Você sabe que é uma urgência, porque está na sua pele, em tons roxos. Eles protelam. Se não podem, se ninguém pode dar a proteção necessária, que digam logo: Te vira, dá no pé! Some, senão você pode virar croquete de cachorro. Antes que qualquer bandeirinha possa levantar a mão. Compre uma arma. Não saia sem o celular, e o GPS, e sem dizer e registrar onde foi. Contrate um segurança.

Melhor: compre um cachorro. Melhor do que esperar gente.

E aí, meninas, o que acham? Poderíamos chegar a uma sofisticação parecida e treinarmos cachorros para que, com seus faros, eles, lindinhos, pudessem nos ajudar a identificar e afastar homens escrotos de nossas vidas(e por essas e outras que dou mais valor ao meu dog Zeus)! Esses parasitas também devem emitir cheiros diferentes em certas horas de pensamentos maus. Horríveis devem ser esses odores, não perceptíveis pelo nariz de mulheres, especialmente se apaixonadas, especialmente se com filhos, ou se ainda tão jovens que pouco treinadas a identificá-los.

Os cachorros farejam, protegem e fazem muito mais companhia. Saberão lhe confiar mais do seu amor incondicional, mesmo até que você nem os ame tanto. Eles têm sentidos desenvolvidos e mais sensíveis que os nossos. Por isso sofrem tanto mais com o barulho, tanto medo tiveram dos rojões e das vuvuzelas ácidas que descompassaram seus corações recentemente, quando devem ter tentado entrar embaixo de todas as saias, pedindo socorro, sem vergonha de nos parecer frágeis.

Os homens não sabem fazer isso: pedir socorro. Por isso tentam ou matam.

Nós sabemos. Principalmente se for para se defender, ladre, grite. Defenda sua vida. Saia desse mato sem cachorro.

Bjks

terça-feira, 20 de julho de 2010

AMIZADE

Que é bom estar junto dos amigos ninguém duvida. Mas será que refletimos sobre os significados mais profundos da verdadeira amizade? Que sentimento é esse que une pessoas diferentes, que ultrapassa limites e distâncias?

O verdadeiro amigo é alguém com quem podemos expressar nossos sentimentos mais íntimos. Ao mesmo tempo é aquele com quem somos capazes de compartilhar o silêncio sem constrangimento. É a pessoa com quem se deseja estar nos piores e nos melhores momentos. A verdadeira amizade é terapêutica em muitos sentidos, mas não se mantém pela utilidade que venha a ter. Porque chamamos de amigo aquele a quem simplesmente amamos e somos por ele amados. Assim, sem grandes explicações, não cabendo em predefinições.

No laço de amizade queremos ver o outro bem, queremos presenciar seu crescimento, compartilhamos suas dores e alegrias, estamos ao lado. O amigo é aquele que nos aponta o que precisa de cuidados, que nos diz às vezes palavras duras com a intenção de que sejamos pessoas mais plenas. Em outros momentos ele nos traz palavras doces, equilibrando nosso modo duro demais diante de algumas situações. O amigo é aquele que parece sondar o mais profundo em nós, ele vem com seu jeito único e nos apresenta um outro lado. Ou simplesmente cala para que nós possamos ouvir nossas próprias palavras ecoarem. Oferece o ombro, os ouvidos e o coração.

O amigo é aquela pessoa que faz parte de nossa vida, porém não o possuímos. Com ele aprendemos que o outro é como é, aprendemos a aceitar e a amar incondicionalmente. Nesse vínculo vamos aprendendo as relações de paridade, em que não há autoridade a seguir, mas sim respeito a compartilhar. Aprendemos a resolver questões em conjunto, a expor o que sentimos, a perceber melhor quem somos. Com a troca de experiências o humano se revela e percebemos que somos parte de um todo muito maior, que não somos os únicos a sentir, a sofrer, a sorrir.

Nessa relação deixamos de ser mais um na multidão que se espreme nas ruas da cidade. Somos mais que números, registros e letras. Somos pessoa, carregamos uma história. Temos uma testemunha. Ele vê os degraus que subimos, as pedras em que tropeçamos, a hesitação, a coragem. Ele acompanha, oferece seu olhar, a sua opinião ou o necessário apoio. No vínculo de amizade sabemos que a existência do amigo é a garantia de um "Estou aqui", uma frase aparentemente simples, no entanto, permeada de presença e companhia.

Por tudo isso (e por tudo o mais que não cabe em palavras) é que lhe convido a refletir: Você está próximo de seus amigos com a frequência desejada? Você encontra tempo para estar com eles, assim como reserva tempo para outras atividades cotidianas? Ou o amigo deixou de ser parte de seu cotidiano? Passou a integrar o campo do extraordinário só participando de datas marcadas? Precisamos instaurar espaço em nossas vidas para momentos de prazer, de troca, para rir e chorar junto, para escolher promover a participação mútua nos acontecimentos.

Por mais que nasça sem grandes explicações, sem motivos explícitos e declaráveis, a amizade só se mantém quando cultivada. Ela se renova a cada momento de presença. Um telefonema, um encontro mensal, enviar um e-mail, marcar um almoço no meio da semana, sem motivo utilitário além da grande razão: queremos nutrir algo que é especial, queremos ver a amizade florescer, queremos estar junto.

Precisamos encontrar espaço para a vida social, que na origem etimológica da palavra carrega o sentido de associação, de fraternidade, de comunhão entre iguais. Vida social em sua concepção mais ampla, de estar junto dos que são nossos irmãos da alma. Isso faz bem para nosso coração, para o coração amigo e para a amizade que se fortalece - gerando mais e mais frutos.

bjks

quinta-feira, 15 de julho de 2010